EM PLENA VIDA
Vasculhou o quarto atrás do tal cartão, mas teve muita dificuldade em fazê-lo por causa da luminosidade que entrava pelas frestas da janela. Em um só golpe fechou as cortinas e bem ali, em cima da mesa próxima à janela, encontrou um pacote fechado sobre o qual estava o tal cartão. Rasgou o pacote e dentro dele encontrou um elegante traje de festas, impecável. Certamente ele deveria vesti-lo para aquela noite. Ainda sem camisa, viu a sua imagem refletida no espelho do quarto e não se espantou, mas achou até excitante, o fato de que ele agora parecia ter mais barba do que de costume, também no resto do seu corpo havia mais pelos, mais escuros e mais grossos. Fitou por um estante os seus próprios olhos e viu neles um brilho diferente, nunca se sentira tão viril. Era-lhe uma potência estranha, mas era uma potência que existia nele, que sempre estivera ali, mas que agora transbordava através de seu corpo.
Caminhou um pouco pelo quarto, ainda se sentia um pouco tonto, um tanto quanto débil, e era-lhe estranho não sentir fome. Ele que sempre acordava faminto. No entanto, sabia que precisava se alimentar… Em meio a esses pensamentos todos, sentiu de repente algo diferente, algo que jamais sentira. Sentiu suas narinas se abrindo, seus ouvidos se aguçando, as batidas de seu coração aceleraram-se e sua respiração tornou-se ofegante. Foi então, tomado por uma espécie de torpor que quase lhe tirou os sentidos. Pôs-se a andar em círculos pelo quarto em um ritmo acelerado e começou a escutar cada vez mais forte os pequenos passos que vinham do sótão. Apanhou rapidamente uma escada e, sem muito saber o que estava fazendo, subiu. Lá pode ver um bando de roedores que iam de lá pra cá com seus pequenos passos. Algo incontrolável tomou conta dele, uma espécie de transe. Quando voltou a si, estava no sótão com as mãos sujas e vermelhas e sentia um forte gosto de sangue na boca. Mal podia acreditar no que supunha ter acontecido.
Desceu para o quarto, lavou-se, vestiu as roupas que estavam no pacote, que agora provavelmente seriam o seu traje habitual. Lá fora fazia um frio cortante e a lua estava plena, bem no centro daquele negro céu. As sombras das árvores dançavam ao vento ao longo de toda a avenida vazia. Apenas alguns cães ladravam procurando o que comer e podiam-se ver as suas sombras que se erguiam como as de lobos selvagens e esfomeados nos muros dos casarões. Chovera há algumas horas atrás e ainda restavam pequenas poças d’água por todo o caminho. Aos poucos, foi escutando ao longe uma melodia, uma inebriante melodia e foi sendo tomado novamente por um torpor, muito parecido com o que sentira há pouco, mas era algo bem mais sutil, apenas uma lembrança, um sopro. Sentiu entrar por suas narinas um aroma de flores e frutas que vinha com o vento, um cheiro adocicado de vida. Conforme ia caminhando, aquela melodia se tornava mais nítida e forte e o seu coração acelerou-se novamente, sua respiração tornou-se mais intensa, o seu caminhar era agora quase como o dos cães famintos que o acompanhavam.
Deu de encontro com um trompetista que tocava seu instrumento sentado na calçada diante de uma estreita porta de madeira entreaberta, deixando entrever um grandioso jardim. Sem jamais parar de tocar, o músico levantou-se e entrou. O outro o seguiu, entrando por aquela porta da qual pendiam trepadeiras de flores avermelhadas e de um perfume adocicado que se espalhava por todo o ar. Subiram em meio a um jardim de altas árvores por uma escada de madeira envelhecida. Pela mesma porta entraram alguns dos cães que o haviam seguido ate ali. Esfomeados, subiram as escadas como se soubessem que ali encontrariam o que comer.
No fim daquela escada havia um jardim ainda maior com árvores ainda mais virtuosas e mais altas que cobriam o chão do jardim com suas sombras ao vento. Ali, em meio àquelas árvores todas, erguia-se um enorme casarão com uma imensa varando ao redor. O músico percorreu um imenso tapete vermelho que se prolongava do jardim, subia uma escada menor e ia dar dentro do salão do casarão, que estava convidativamente aberto, com as suas grandes portas escancaradas. O músico seguiu pelo tapete e desapareceu ate sumir de vista. Ele, então, fez o mesmo. Subiu as escadas, passou pela grandiosa varanda e entrou naquele salão imenso.
Não sabia onde estava, mas sabia que era ali, sem dúvida, o endereço do cartão. Sem entender muita coisa foi entrando. Ele ali, em meio àquelas pessoas todas, que nem pessoas eram de fato. O que teriam sido antes? Médicos, advogados, desocupados… Mas afinal, para que tudo aquilo? Toda aquela pompa, aqueles trajes impecáveis, aquele salão luxuoso esbanjando riquezas? Todas aquelas pessoas lhe pareciam um tanto quanto artificiais, tinham um quê de marionetes. Mas, enfim, quem era ele para achar alguma coisa, senão apenas um reles novato. Chegara cedo e logo depois dele entraram no salão outros que como ele provavelmente não estavam entendendo muita coisa, seriam os outros novatos, com certeza. Àquela altura, já sentia um certo incomodo por causa daquela vestimenta com a qual não estava acostumado. A gola da camisa que lhe cobria todo o pescoço era de um branco impecável, e vinha por baixo daquela espécie de terno todo negro, aquela gola da camisa estava se tornando para ele quase impossível. Seu pescoço, aliás, vez ou outra doía em fortes contrações fazendo-o lembrar da noite anterior. Se pudesse escolher, sem dúvida teria vestido algo mais confortável, mas ele seguira ordens.
Conforme a noite ia avançando, chegavam outros tantos, todos bem vestidos. Eram damas e cavalheiros de fina estirpe, que nada se assemelhavam com novatos, e soavam um tanto quanto irreais. Começou a notar então uma cera hierarquia entre estes, um sutil jogo de poder. Havia castiçais espalhados por todo o jardim e no interior do salão, que era todo meia luz. As velas choravam a cada nova melodia dos músicos que, trajados elegantemente de negro, não destoavam do tom daquela noite.
Ele observava tudo ao longe, tentando entender. Reparou que havia no meio de todos aqueles poderosos, um grupo que se distinguia por sua estupidez e inadequação. Certamente era o grupo dos novatos, como ele. Trajados com aquelas roupas elegante que não condiziam com o seu comportamento, aqueles jovens inexperientes esforçavam-se inutilmente por assemelhar-se a seus superiores. Seus esforços, no entanto, pareciam em vão. Eram notavelmente estúpidos e inadequados na tentativa de parecer o que não eram. Tentavam tirar algumas damas para dança e, quando finalmente conseguiam, acabavam por pisarem-lhes os pés, fazendo com que elas rapidamente arranjassem alguma desculpa para escapar das mãos daqueles péssimos dançarinos. Seus superiores, vez ou outra, lançavam a eles um olhar lancinante de total desaprovação, ao que eles reagiam com um enrubrecimento das faces e os olhos voltados para o chão, em um profundo desanimo.
Ele observava tudo de longe e recusava-se a juntar-se àquele bando de tolos, preferia a sua solidão. De vez em quando, saia para dar uma volta na varanda e ver a lua. E em um desses seus passeios, viu chegar um homem distinto, mais velho do que todos ali. Era tranqüilo e trazia na face o semblante de alguém que já viveu muito e traz consigo as marcas da experiência. Era o homem da noite passada, era ele, o homem que lhe entregara o cartão e que lhe deixara marcas profundas, marcas de dor e o início de uma nova vida. Seguiu-o com o olhar até ele entrar no salão, depois foi atrás sem ser notado, para observar. Por um momento todos pararam, houve uma suspensão, e todos os olhares se voltaram para aquele homem, como se algo estivesse prestes a acontecer. Depois tudo voltou a ser como instantes atrás. Uma coisa chamou-lhe a atenção de imediato: aquele homem, que parecia ser o mais poderoso dos ali presentes, não usava negro, usava uma roupa de tons claros e de um tecido diferente, com certeza bem mais confortável.
Viu, então, o homem mais velho aproximar-se daquele bando de novatos. Ficou com eles ali por um tempo, conversando alguma coisa que ele de longe não pôde compreender. Mas reparou que conversava com eles de um modo diferente de como os demais os tratavam. Ele tinha em si a humildade e tratava-os de igual para igual. Depois, ele se distanciou e o bando dissolveu-se entre os outros convidados. Num instante não havia mais o bando de novatos e estes agora nem eram mais tão destoantes entre os demais convidados.
A noite prosseguiu e lá pelas tantas da madrugada, em um de seus passeios pela varanda do casarão ele foi surpreendido por aquele homem mais velho. Conforme este foi se aproximando, ele foi sentindo novamente aquele torpor, o coração parecia-lhe querer sair pela boca. O homem mais velho nada disse, lançando apenas um olhar que o tomou completamente. Sentiu que alguma coisa o tinha atingido, um magnetismo fez com que ele também lançasse um olhar fulminante para aquele que era o seu guia. Reconheceram-se, então, como animais da mesma espécie, completamente absorvidos na tarefa de encararem-se um ao outro. Eram puro instinto. Ele sentiu de repente que algo crescia em sua boca e, sem saber ao certo o que estava fazendo, escancarou-a bruscamente colocando para fora dois enormes caninos pontiagudos que lhe coçavam mais que tudo. O mais velho, diante deste, fez o mesmo e os dois fitaram-se ainda com maior intensidade até soltarem em uma só voz um grunhido visceral, que lhes fez o sangue ferver e percorrer o corpo todo em frações de segundo. Estavam à flor da pele. Tomados por um impulso voluptuoso, por um desejo incontrolável, desapareceram rapidamente por entre as altas árvores do jardim que balançavam deixando entrever ver, vez ou outra através de seus galhos, aquela lua, amarela, prenha, fértil e feminina. Era a vida enfim, o início de uma nova vida que lhe surgia.
